CONSTRUINDO UMA SOCIEDADE INCLUSIVA POR MEIO DO TEATRO

Dirce Shizuko FUJISAWA[1]

Eliza Dieko Oshiro TANAKA[2]

 

FERREIRA, S.L. (Org.) Teatro e deficiência mental: a arte na superação de nossos limites. São Paulo: Mennom, 2002.

A luta em prol da igualdade de direitos para as pessoas com deficiência mental, nos últimos tempos, começou a envolver vários segmentos da sociedade, e os debates sobre a sua inclusão social tornaram-se cada vez mais crescentes. Com isso, o desenvolvimento de estudos que tratam dessa questão e a publicação de literatura na área também se multiplicaram. Essa literatura traz uma diversidade de temas sobre a questão, desde reflexões filosóficas, teóricas, metodológicas até relatos de experiências sobre práticas de educação inclusiva.

Discutir a inclusão de pessoas com deficiência mental na sociedade e ter a intenção de colocá-la em prática, teoricamente não parece ser uma proposta tão difícil. Porém, torná-la uma realidade requer muita responsabilidade, luta, envolvimento e preparo por parte daqueles que se propõem a fazê-la.

O livro organizado pela professora Solange Leme Ferreira traz uma experiência desafiadora para a construção de uma sociedade inclusiva, trilhada por um caminho bastante inusitado: o teatro. Relata as experiências desenvolvidas por meio de um projeto de extensão universitária da UEL, em parceria com uma instituição de ensino especial – APAE, onde busca na arte educação estratégias que propiciem a participação responsável de pessoas com deficiência mental na educação inclusiva. Embora a liberdade, autonomia, criatividade sejam aspectos bastante valorizados durante a realização do trabalho, a preocupação e o cuidado com a sistematização dos resultados obtidos e a sua fundamentação em teorias para discutir e explicar a questão são partes bastante presentes no processo.

A inclusão proposta nesse livro não é vista apenas pelo âmbito da pessoa com deficiência mental, mas também dos seus familiares, da sociedade e do próprio indivíduo que busca fazer essa inclusão.

Em relação às pessoas com deficiência mental, observam-se mudanças que transcendem a aquisição de habilidades básicas, pois elas aprendem a lidar com situações problemas que, eventualmente, surgem no seu cotidiano e, também, a buscar possíveis alternativas para solucioná-los.

Na visão da família, a oportunidade conseguida pelos filhos para participar de uma atividade teatral tornou-os mais participativos, melhorou a sua comunicação e as suas atitudes, possibilitou adquirir comportamentos de seguir regras e promoveu a integração com outras pessoas do seu meio.

Essa experiência também proporcionou informações à sociedade sobre os reais sentimentos, possibilidades e limitações das pessoas com deficiência mental, por meio das discussões ocorridas entre atores e espectadores, realizadas ao final de cada apresentação da peça teatral. Além disso, os textos cênicos mostram a visão de mundo desses atores, já que os mesmos são criados e elaborados por eles próprios.

Para os estagiários do projeto, a oportunidade de conviver com a pessoa deficiente mental e de vivenciar a educação inclusiva, além de modificar a sua concepção e representação acerca da deficiência, propiciou a oportunidade de desenvolver habilidades de manejo de grupo e a participação de trabalho em equipe.

Cabe ressaltar que, a cada laboratório surgiam situações novas e diferentes que eram solucionadas pelos próprios atores, demonstrando à equipe coordenadora as habilidades que as pessoas com deficiência mental possuem para tal. Além de trabalhar a competência, autonomia, criatividade dos atores, um outro assunto tratado nesses laboratórios foi a sexualidade. Tal tema era lidado com bastante propriedade pela equipe, respeitando-se o ponto de vista desses atores, e abordado sem preconceitos e tabus.

Além dos aspectos acima citados, pode-se dizer que a proposta relatada no livro propiciou a oportunidade de formação dos estagiários de Psicologia e áreas afins no que se refere ao trabalho com pessoas deficientes mentais. Vale destacar que, esse projeto, desde o seu início, teve a preocupação com a formação acadêmica, pois surgiu do contundente e persistente “assédio” de uma aluna à professora que, apesar da pouca bibliografia existente sobre teatro para deficientes, abraçaram a idéia que resultou na experiência relatada nesse livro.

A leitura do livro propiciou uma idéia do trabalho que foi desenvolvido, porém, a dimensão desse projeto e os resultados que ele vem obtendo vão muito além do que está exposto. O público que tem a oportunidade de assistir, ao vivo, a exibição da peça pelo GTPAÊ – Grupo de Teatro para Atores Especiais, no início, o fazem com a expectativa de ver pessoas deficientes mentais participando de um teatro. Entretanto, no curso da apresentação essas pessoas conseguem demonstrar o seu potencial criativo, autonomia e habilidades para solucionar os imprevistos com tamanha propriedade e auto-confiança, que a platéia vai se envolvendo com o espetáculo e passa a enxergar muito mais a atuação desses atores numa peça teatral do que propriamente a sua condição de ser deficiente .


[1] Docente da Universidade Estadual de Londrina- e-mail: dirce07@sercomtel.com.br

[2] 1Docente da Universidade Estadual de Londrina- e-mail: elizatanaka@sercomtel.com.br.

 

Fim do Texto

 

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