RESENHA

QUANDO O CORAÇÃO ESCREVE

Maria Cristina Bergonzoni STEFANINI[1]

Resenha de “Um testamento de mãe”, de Benilde Justo Caniato, Editora Lato Senso, 2000, 96p.

Os depoimentos quando escritos não evocam apenas o reconhecimento ou a compaixão por quem os relata, mas exercem uma espécie de provocação. A de eliciar em que lê uma indagação constante que se exprime pelo: - e se acontecesse comigo? Ou seus desdobramentos: -Será que eu agüentaria? Ou, será que eu faria a mesma coisa?

Benilde Justo Caniato, professora de língua portuguesa, certamente não tinha a intenção de provocar ninguém quando escreveu – Um testemunho de Mãe. Tem ela uma razão pessoal, além de intenção de que outras mães e pais se lembrem de que seus filhos deficientes também foram feitos à imagem e semelhança de Deus.

Júlio, Marcos e Líris – os três primeiros que a Vida lhe trouxe são portadores de uma síndrome descrita na década de 90, como Síndrome de Joubert, caracterizada por “uma redução cerebelar associada à atrofia subcortical difusa de ambos os hemisférios cerebelares” (Lefréve, p.16). Mas para a mãe Benilde, esses nomes vieram muito depois da aceitação amorosa e do enfrentamento lúcido diante das limitações físicas que eles apresentavam. A Quarta filha, Taís, depois de rigorosa sondagem pela competente equipe do Dr. Lefrève (na época, o mais famoso neurologista infantil, para o qual acorriam as famílias com crianças de casos raros), recebeu alta. Não Havia nenhum problema neurológico com ela.

O que se encontra neste livro é o transcorrer dos episódios dolorosos contados sem amargura, porém com a força que lhes caracteriza, como as doenças, as internações e as perdas, ao lado dos acontecimentos da vida comum, mas que nesta caso “vinham a granel”. Por exemplo, quando Júlio e Marcos tiveram uma pleurasia dupla, Benilde uma pneumonia e o pai quebrou a cabeça do fêmur. O que se indaga é se os intervalos entre os acontecimentos destinados ao repouso são poucos e breves, ou se devido à forma com que foram selecionados e registrados faz parecer que não davam trégua a esta família. No entanto, a natural estagnação diante de notícias tão duras se contrapõe uma bravura de mesma intensidade, mas de sentido contrário. Isso fica registrado por Benilde em frases como: - “era preciso pôr os pés no chão e procurar fazer com meus meninos o necessário para poderem sobreviver da melhor maneira possível” ou como em outro trecho em que diz: - “no entanto, era preciso continuar a viver. Ainda tinha a Líris”.

São estes saltos sobre o abismo que servem de aprendizado para outros pais cujas histórias se repetem. Não somente para os pais, mas também para os especialistas, que embora possam estar diante de pessoas como casos, podem se valer da pedagogia da compaixão para transformar conceitos e atitudes.

A linguagem simples e pontual permite ao leitor participar das cenas com o coração. Como Benilde não se atém a detalhes, a participação do leitor não é na trama dos acontecimentos, mas no acompanhamento dos sentimentos e emoções dos personagens. É um estar junto sem estar, ou uma vontade de estar lá onde e no momento em que seria impossível estar. Mas para o coração nada é impossível, embora difícil, diz Benilde.

Os que já leram este pequeno-grande livro o fizeram de um fôlego só. Talvez por que fosse interessante num primeiro momento e depois porque já não fosse mais possível abandonar a narrativa, pois já se faz parte dela, não somente como empreendimento cognitivo senão como empreendimento afetivo. Na realidade o que para a autora é o relato de uma viagem de vida inteira guardada na memória do coração, para nós é um convite a uma viagem fora de nós mesmos, um exercício de estender a capacidade de amar, de nossos filhos para os filhos dos outros. Aceitemos, pois, esse convite!

 


[1] Docente do Departamento de Psicologia da Educação da Unesp – Araraquara.

 

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